Segue abaixo “O Método”, criado por Fernando Meirelles com os novos procedimentos para as filmagens da O2.

O Método – Projeto Definitivo

O MÉTODO:

1 – No mundo digital não faz mais sentido nos referirmos as nossas tomadas como se fossem filmadas. Faremos uma nova claquete onde deve constar o tipo de camera, o número do cartão ao invés do rolo, o número do clipe gerado pela câmera no lugar do take e o número da cena como é hoje. Vamos manter um espaço para colocar o número de take de cada cena para quem achar que ajuda a rever o material no set.

Obs 1 – O número do clipe gerado pela câmera vem com umas letrinhas tipo AZX 023. O que vale é sempre o número final: 23.

Obs 2 – Cada câmera tem um padrão, a Silicom, por exemplo, dá a data e horário de cada take como um time code. Cabe ao ASSISTENTE DE DIREÇÃO, no set estabelecer qual número será usado por todos.

A primeira decisão: De hoje em diante todo mundo usa os mesmos números. O som direto canta a cena, o número do cartão e o número do clipe não mais a cena, o rolo, e o take. “- Cena 4, cartão 2, clipe 23…ação.”

2 – Vamos voltar aos anos 60 quando no set o diretor dizia ” copia essa”, ao final de cada take que lhe parecesse razoável. Agora o DIRETOR dirá “loga essa. ”

Esse é o momento mágico que vai fazer toda a diferença no volume que chegará ao montador.

A segunda decisão: Ao final de cada take o DIRETOR deve avisar o ASSISTENTE DE DIREÇÃO se o take rodado deve ser logado ou não. O ASSISTENTE DE DIREÇÃO escala alguém para fazer o relatório de câmera onde esta informação vai anotada ou faz isso pessoalmente. Assim que o cartão estiver cheio ele é entregue para o LOGGER junto com este relatório de câmera com o qual o LOGGER vai separar o material que vale do lixo. Cada cartão tem seu relatório.

3 – Os takes bons devem ser separados pelos LOGGERS numa pasta chamada “SELECT”. Esta pasta deve ser copiada num HD Vermelho chamado SELECT e este será o único material transferido para a ilha de montagem e depois arquivado em LTO.

Como segurança o material bruto também deve ser copiado pelo LOGGER num outro HD, laranja, chamado “BRUTO” que será guardado caso seja preciso ver mais material. Este bruto no entanto não passará por todo o processo de conformação, digitalização etc e será apagado assim que o filme for ao ar.

Cada HD deve ser mandado pelo PRODUTOR para a produtora acompanhado dos respectivos relatórios de filmagem. Na produtora haverá um coordenador destes arquivos que transfere o material do HD vermelho e deixa de lado o laranja.

A terceira decisão: O logger deve fazer duas pastas, o SELECT e o BRUTO. Cada pasta desta é copiada num HD diferente. Vermelho para o SELECT e LARANJA para o BRUTO. Só o HD vermelho faz todo o processo até as ilhas de edição e depois o arquivo em LTO. Os HDs devem sempre ser acompanhados dos relatórios de câmera.

4 – Com a gravação digital, muitos sets praticamente aboliram a palavra “corta”. Como a câmera só registra um novo número de clipe quando é cortada, apesar de ser chato, é fundamental que depois de cada erro diga-se “corta”, para que o que foi gravado até então, o lixo, seja jogado fora. Sem isso os clipes ficam imensos e dificultam muito todo o processo que se segue: Logar, conformar, digitalizar, montar e conformar para LTO para arquivar.

A quarta decisão: Corte sempre após cada erro ou entre cada novo take. Perde-se um tempinho no set fazendo claquete mas salva-se um tempão em todo o resto do processo e melhora a qualidade do trabalho do montador.

5 – Será cobrado de cada filme um valor por hora de material que chega na ilha de edição. Ao fazer o orçamento os diretores serão perguntados quantas horas de material querem ter na ilha, como no tempo do negativo.

obs: não estamos acrescentando um custo apenas separando este ítem do custo do resto do processo de pós.

A sexta decisão: Os filmes pagarão por hora de material transferidos para a ilha de edição

Observações finais:

– Este esquema vale para filmagens com uma câmera ou com múltiplas câmeras sempre que todas usem a mesma claquete e que sigam a ordem de cortar e logar dada pelo diretor. Nestes casos a claquete trará a informação de quais estão rodando a mesma cena, assim o montador sabe que tem a mesma imagem por outro ângulo.

– No caso de câmeras soltas que buscam imagens independentes do DIRETOR e do ASSISTENTE, passa a ser função do CÂMERA-MAN desta 5D ( ou seja qual sistema estiver sendo usado), no final de sua diária, entregar para o LOGGER junto com seu cartão, um relatório organizado de tudo o que fez com a indicação do que deve ser logado ou não. Isso dará mais trabalho aos CÂMERA-MEN-espírito-livre, mas também ajudará a disciplina-los ensinando-os a ser mais objetivos. Filmagem é uma coisa, pescaria é outra.

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Colocando O Método em prática

Email enviado por Fernando Meirelles aos assistentes de direção que prestam serviços à O2:

Caríssimos assistentes de direção,

Nestas últimas semanas andamos preocupados aqui na O2 com os caminhos que as diárias de filmagem/gravação estão tomando com múltiplas câmeras de múltiplos formatos que geram arquivos pesadíssimos e demoradíssimos para serem conformados, transferidos, montados, fora a desorganização com que este material chega na produtora e então resolvemos criar um Método para dar uma disciplinada neste novo momento que vive o set. O grande objetivo é acabar com filmes que mandam para a O2 5, 6 ou 10 horas de imagens.

Para que esta iniciativa de certo o trabalho de vocês é fundamental então peço que por favor leiam a proposta abaixo e após as próximas diárias, ao tentar aplica-las, por favor nos passem um retorno do que tem funcionado ou não para irmos afinando o procedimento.

O Carlos Vecchi vai acompanhar a maioria dos sets por um tempo para tentar ajudar a criar um padrão para este novo fluxo de trabalho que queremos estabelecer.

Como vocês vão ver, o tal Método joga em vossas costas mais uma responsabilidade que é a de garantir um relatório de câmera com a anotação do que serve e o que não serve na filmagem. Isso pode ser feito pessoalmente ou através de um assistente que vocês elegerem. Cabe a cada um ver como prefere fazer.

Retornos são bem vindos.

Fernando

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Os Assistentes se posicionam

Email enviado por Gabriela Cassaro, assistente de direção:

Caro Fernando,
Primeiramente obrigada pela aula de processo.

Acho importante atribuir as tarefas para que o nosso trabalho de equipe funcione na prática e vire realidade mais rapidamente.
Entendo os procedimentos de captação na dinâmica do set como responsabilidade do primeiro assistente de direção, em seus itens 1, 2 e 4. O terceiro item deve ser responsabilidade do logger e o quarto do diretor, já que envolve um processo em que nós, primeiros assistentes, não participamos (orçamento). Tudo deve, claro, acontecer sob a nossa atenta supervisão, como tudo no set. Não creio ser possível para o primeiro AD tocar um set “ponta firme” tendo que anotar infos num relatório a todo tempo. Quem operacionalmente faz isso desde algum tempo é o segundo assistente de direção e, em alguns sets, o segundo de câmera que não carrega mais chassis e que trabalha ao lado do logger.

A princípio, uma coisa é certa. Precisaremos de segundos assistentes operantes, atentos, como já são em suas planilhas (hoje superadas). E nem sempre o orçamento prevê um segundo. Pela sua importância, sugiro que o cachet do segundo seja desmembrado do primeiro na O2, como era antes. Assim entende-se o segundo como assistente do filme e não do primeiro, dada a sua importância real e as responsabilidades a ele atribuídas como necessidades do filme.

Não se trata de reduzir o discurso de método a uma questão de cachets mas, se de fato vamos assumir a responsabilidade de fazer acontecer um novo esquema, é importante que alguém tome conta disso da maneira mais focada possível dentro de nossa equipe e de uma forma profissional, completa.

É mais do que importante prá gente e pro nosso novo mercado o seu tipo de iniciativa e orientação. Na teoria tem tudo para funcionar.
Vou tentar em meus próximos sets e dou notícias.

Saludos,
Gabriela Cassaro

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O Método – Repercussões

Segue abaixo a manifestação do profissional Marcelo Pedrazzi da Afinal Filmes.

Bom dia, Fernando.

Recebi seu e-mail através de outros profissionais da área sobre “O METODO”
Trabalhei com a O2 Filmes entre o filme Cidade de Deus, o qual fui assistente de montagem, e a segunda temporada da série Cidade dos Homens, o qual trabalhei como finalizador.

Hoje tenho uma produtora no RJ, onde trabalhamos na produção de nossos projetos, edição e finalização.
Estamos com duas ilhas HD e três ilhas standard, e entendo perfeitamente o que você coloca abaixo.
Além disso, continuo trabalhando como montador e finalizador.
E na parte de finalização tenho me dedicado, sempre que posso, a documentários.

Além do que vocês colocam abaixo tenho um outro ponto que tem nos assombrado, além da falta de espaço em disco para tanto material filmado.
Com o lançamento das câmeras com captação em arquivo, criou-se um problema que eu já sentia quando finalizava documentários com grande diversidade de imagens de arquivo. A quantidade de formatos diferentes.

Hoje temos que nos preocupar com Formato do arquivo, Tamanho do arquivo, Resolução do arquivo e Codec utilizado no arquivo.
Já pegamos um projeto que foi filmado com 4 câmeras diferentes, isso gerou um problema enorme na ilha.
Pois tivemos que perder tempo para achar um caminho comum para todos os formatos, que fosse facilitar o trabalho do montador no workflow do equipamento, mas que também fosse uma estrada tranqüila para a finalização.

Apesar do software de edição da apple, o final cut, a até mesmo a nova versão do avid, colocar que numa mesma sequência do timeline ele pode reproduzir diferentes formatos, isso não é aconselhável no dia-a-dia, pois mesmo na máquina mais potente, não iremos utilizar arquivos 4k para montar um offline.

Até o momento não conseguimos pensar numa saída para o pessoal do set.
E acredito que não conseguiremos nada mesmo.
O que temos feito é adotar uma logística de reunião técnica antes de entrarmos num projeto.
Assim avaliamos filmagem, edição offline e finalização. E daí formulamos uma proposta de trabalho para edição e finalização.
Mas, o que acontece é que não conseguimos aplicar uma mesma proposta, um mesmo método, pois cada projeto que pegamos é uma surpresa diferente.

Iremos acompanhar o blog da O2 e tentaremos contribuir no que for possível por aí.
Da mesma forma a Afinal Filmes está aqui no RJ caso vocês precisem.

Abs,

Marcelo Pedrazzi

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Abaixo, o email enviado para Fernando por Hugo Kovensky.

Parabéns Fernando!

O método, e seu discurso, são o resultado do bom senso.
Se conseguimos parar e pensar, ainda dá tempo para recuperar o “rigor” do que Ricardo Aronovich fala tanto e que representa um dos grandes capitais que acumulamos ao longo do caminho que o cinema transita a mais de 100 anos.
Acho que o risco de se perder, na falta de rigor, é um dos perigos da época de grandes mudanças que estamos vivendo.
Obrigado Fernando e Lauro por compartilhar com a lista.

abraço a todos

Hugo

Achei legal, mesmo, que você assinou embaixo o “método”.
O deciframos, ou o bicho nos devora!! :) :) :)

abraço forte

hugo

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O Método – Discutindo o tema

Email enviado por Cacau Rhoden para Fernado Meirelles:

Caros colegas,

Serei breve para não ser repetitivo com o assunto já em bom andamento. Restabelecer o método talvez seja o ponto crucial da conversa. Não há dúvida que ele se perdeu por muitos fatores. Tornar mais sistemáticas as filmagens como eram anteriormente só trará benefícios a todos os departamentos. Principalmente ao de finalização, maior prejudicado com isso.
Concordo também que não cabe aos assistentes de direção desempenharem essa função, por questões óbvias. Isso inevitavelmente seria um acumulo prejudicial as outras funções atribuídas e de responsabilidade dos assistentes de direção.
Sabemos que filmes tem tamanhos variados de produção, o que significa na minha opnião que será necessária a inclusão de um profissional capacitado que seja responsável apenas por essa função, pois a experimentação deste método através do 2ºassistente de direção pode funcionar em alguns filmes, como tenho certeza que não vai funcionar em produções de tamanho médio e grande sem prejudicar o restante das outras atividades no set.
O 2º assistente de direção tem funções muito bem definidas que vão muito além de dar apoio ao 1º assistente de direção.
Não vou exemplificar aqui as funções dos assistentes de direção por não ter a menor necessidade, mas acho que muitos vão concordar comigo.
Tenho certeza que a relação custo/benefício da contração desta “figura” nas filmagens, que eventualmente pode ser alguém que acompanhe a finalização, talvez uma pessoa desse departamento ou do de câmera, não irá comprometer a viabilização dos projetos e provavelmente se as cifras citadas na proposta de Fernando Meirelles, forem estas, essa cargo trará segurança de economia. Temos que lembrar que muitos cargos foram extintos com as transformações tecnológicas e outras foram criados. Será esse o nascimento de um novo tipo de técnico cinematográfico? A discussão é muito pertinente e acho que deve ser feita com seriedade, comprometimento e participação de AD’s, Finalizadores, Diretores, Equipe de Cameras, Produtores, enfim a qualquer técnico envolvido direta ou indiretamente. Também acho que se for necessário teremos que experimentar algumas formas de resolver isso até acharmos o ideal.
A proposta/método de Fernando Meirelles traz uma luz ao cotidiano nos sets, tão abalados por falta de método e a frase que mas me encantou foi: …filmagem não é pescaria…..
Concordo, estou absolutamente a disposição para qualquer discussão sobre esse tema e qualquer outro que torne nosso ofício mais nobre novamente.

Muito Obrigado!!
Um Grande Abraço a todos.

Cacau Rhoden

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Email enviado por Fernando Meirelles como resposta para Cacau Rhoden:

Cacau,

A idéia do assistente de direção ser o responsável é apenas por vocês serem a voz de comando no set. Acho que é impossível vocês terem que anotar, mas se assim que disserem “CORTA”, acrescentarem; “loga ou não loga? “para que o diretor se posicione, o trabalho está feito. O diretor diz “loga” e seja lá quem estiver anotando, anota. Só isso.

Vamos testar este jeitão ainda sem aumentar a equipe, e se não estiver funcionando vamos mudando.

abraços,

Fernando

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Email enviado por Danielle Pedroso.

Olá a todos

Achei bacana o própósito, acho que quanto mais organizado, melhor, e agradeço também a aula e iniciativa, Fernando, mas concordo com a Gabi e a Bel em alguns dos pontos que expuseram.
Acredito que um bom segundo assistente daria conta de fazer “também” um boletim de câmera, porém concordo com a Gabi com a questões expostas. Pra um 1º ass tocar um set direito, é difícil se preocupar com anotações com tantas prioridades na correria, e muitas vezes, por diminuição de orçamentos, não conseguimos ter nossos segundos, já que temos que tirar dos nossos cachês para tê-los. Se os cachês fossem desmembrados, e os 2ºs primordiais (como são pra gente) pro filme, pro set, acho q o trabalho seria mais focado sim, mais organizado, e com certeza todos aprenderiam muito mais. Além de trabalharem mais felizes! hehehe Acho bem legal que o método se aplique a nossa categoria, até porque com todo sentido é a ligação diretor -montador, mas acho q acúmulo de funções (pra categoria) requer muita organização, boa remuneração pra todos (afinal as responsabilidades aumentam), treinamento e competência.

Agora, como a Bel expôs a questão diretores, e eu concordo também, queria só ressaltar que cada um é cada um, tem diretores q talvez não resolvam no ato, na pressão, se querem este ou aquele take no select, ainda mais se a diáiria for louca e corrida, e daí, fica difícil, né…a gente tenta, com certeza…
E ainda com relação a isso: quando estamos filmando em locação, com muitoooos deslocamentos por dia, sem ter tempo para ir ao banheiro direito, será que vamos conseguir parar pra fazer o diretor avaliar, se quer esse take no select, ou não?! Mesmo com toda a formação do método, o “anotador”, a boa vontade, no calor da hora, pode ser que alguns diretores não queiram ter essa preocupação a mais na diária…
Acho bem importante eles também estarem por dentro de tudo isso, e exporem também suas opiniões, necessidades, pra gente não dar início a um processo evolutivo que depois não resulte em nada, só em excesso de informação, e caia no buraco negro da tentativa e esquecimento.
Acredito que vá acontecer também do método se adequar a cada diretor, dentro do modo de cada um trabalhar. Mas eles tem que estar conscientes!!
Vamos lá! aguardo notícias do front!
valeu
abr

Danizinha

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Email enviado por Fernando Meirelles, em resposta à Danielle Pedroso.

Danielle,

Na verdade este select feito no set não é um select de montagem, é apenas para tirar os takes que claramente não poderiam ser usados, que o ator errou o texto, que o tempo passou muito longe do que deveria, problemas de foco, de movimento. Só tirando isso do que chega na produtora acho que o material cai para 1/3. Take que foi atee o final, correto técnicamente entra. Não ha 1 segundo de avaliação e nem revisão. É pá e bumba. Ao menos é como vejo.

Valeu o interesse.
bj

Fernando

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Email enviado por Marcelo Guimas.

Prezados amigos,
Lendo atentamente o email do Fernando e algumas respostas de colegas AD, gostaria de levantar alguns pontos:

1) Realmente chegou a hora de voltarmos a ter no set, a disciplina na geração de material captado, que tínhamos quando usávamos apenas película;
2) Concordo que para a captação em formato digital, deveremos desenvolver novos mecanismos com as nomenclaturas atuais, como a criação de novas claquetes por exemplo;
3) O relatório, ao meu ver, deveria ser algo padronizado e impresso, eliminando assim formatos diferentes para cada equipe. Creio que isso, com o tempo, também ajudará na leitura imediata desses relatórios na ilha de edição;
4) Me pareceu bem pertinente a proposta da Bel Valiante de formarmos o profissional responsável pelo preeenchimento do relatório. Não creio que conseguiremos resolver questões tão relevantes, simplesmente delegando mais essa função ao AD. Imagino que essa pessoa seja um profissional que intermediará no set os departamentos de direção e finalização. Para tal, num primeiro momento, poderíamos pensar em alguém que seja contratado e pago pela diária de captação (como se faz com membros da equipe de câmera por exemplo).

Quanto aos outros assuntos comentados, como voltar a cortar os takes, informar se serão válidos ou não, tudo isso nada mais é do que voltarmos para onde nunca deveríamos ter saído.
Coloco-me a disposição para reunião, conversas, encontros, tertúlias, o que for necessários para aprimorarmos nossa forma de realizar os jobs.

Un saludo a todos.
Marcelo Guimas

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O Método – Segue Discussão
Email enviado pela assistente de direção, Flávia Zanini:

Fernando, Celia, Vecchi e colegas Ads,

Sexta e sábado foram os meus primeiros dias de filmagem sob a vigência do “Método” e gostaria de expôr a minha experiência e impressão.

Acredito que a minha filmagem se enquadraria no quesito “fácil”. “Gravei” em sets super controlados, com uma camera 5D, sem som direto e sem figuração.
Com essa realidade, pude disponibilizar a minha 2AD para ficar ao meu lado o tempo todo anotando os clips a serem logados, conferindo se a claquete estava correta e confirmando com o logger que o material que havia sido gravado estava completo e coerente com o boletim.

Ainda assim, numa situação ideal, alguns problemas foram encontrados. A 5D não possui o número do clip aparente no visor e por se tratar de uma máquina fotográfica, muitas fotos são tiradas ao longo do processo de enquadramento e afinação de luz. Portanto, faz-se necessário, o tempo todo, a checagem de clipe. Ocorreram vezes em que o DP tirou uma foto logo antes de rodar, sem que o AC tenha percebido e a numeração de claquete e boletim passam a não sincronizar com a da camera. Isso gera um boletim errado, o que faz o logger, capturar o número de clipe errado.

Para que esse erro não se prolongasse por muito tempo, passamos a trocar o cartão ao final de cada cena. A minha 2AD então ia, junto com o logger, checar a numeração.

No mundo ideal, como foi o meu caso, o Método não foi impossível de ser realizado, mas consigo ver que numa filmagem com mais elenco, mais câmeras, será necessária uma pessoa somente para esse trânsito. É impossível tocar camarim, adiantar elenco e figuração da próxima cena e ainda assim, continuar a checar o clipe, a claquete e se o material logado bate com as informações do boletim. Numa situação como essa, nem transferindo a dor nas costas do montador para as pernas do 2AD, essa correria vai ser eficiente! Talvez um continuista , nesses casos, seja mais apropriado e deveria ser pensado já no estágio de orçamento.

De qualquer forma, o que eu percebi é que ficou mais consciente a necessidade de “cortar”. Então quando o diretor começa a instruir o ator durante o take, mesmo que seja rápido, a camera é cortada e o próximo clipe, claquetado. De qualquer forma, não foram todas as cenas que claquetamos “clipe a clipe”, principalmente quando estávamos filmando com criança. Sem cortar, íamos fazendo “mais uma e mais uma”. Acho também que, nesse caso, utilizar-se da tecnologia ao seu favor, faz sentido. É melhor não cortar e não perder a concentração da criança do que o inverso.

Muitas vezes, ocorria do diretor ir pedindo para logar, logar, logar e quando encontrava um take melhor, me dizia: “apaga todas as anteriores e vamos ficar com essa”.

Como o “Método” é o assunto do momento nos sets, é possível utilizar-se disso ao seu favor. Muitas vezes, em tom de brincadeira, eu dizia: “Gente, olha o Método!”, “Registra o Método” e a aceitação em registrar a claquete, take a take, fica menos chata e mais lúdica!! Mais uma vez, no meu mundo controlado, funcionou. Já no mundo lá fora…

Também estou a disposição para qualquer reunião, bate-papo, etc, etc…

Um beijo a todos.

Flavia

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Resposta dada pelo coordenador de efeitos da O2 Pós, Carlos Vecchi, ao email de Flávia Zanini.

OI Flavinha, agradeço seu feedback, pois vai ajudar muito no ajuste no método. Na filmagem de Sky no mesmo dia também notei algumas coisas que precisamos mudar, como por ex. seguir o número do clip não dá segurança, mas para resolver vamos atribuir isto ao loger, pois até eles acham mais seguro e tbm podem controlar melhor.
Outra coisa tanto no seu filme quanto no meu sé tinha uma camera. Quando filmarmos com 3 câmeras, a claquete será muito confusa, com um número de clip para cada câmera na mesma claquete, para resolver isto acho melhor usar o velho TAKE. Inclusive para o audio vai ser melhor.

Fernando, na nossa reuniao com a Fabi e o Tomas decidimos que teríamos 3 HD’s no set, 2 espelhados e um só com o select, mas na ultima hora mudei para: 2 como um espelho e o select ficou numa pasta, num deles, fazendo assim o loger pode checar todo o material bruto entes de fazer o select e no final só cria uma pasta num dos HD,s.

Eu gostaria de marcar uma outra reunião antes de padronizar o método com as seguinte pessoas:

2 loger’s
1 Assistente de direção
1 Assistente de pós
1 Finalizador
Coordenação de pós
LTO

Fora isso estou conversando com assistentes de câmera, pessoal de audio e montadores.

Depois desta reunião vamos vamos escrever as regras mantendo o que vc ja fez só ajustando estes detalhes.

PS.: O PROPÓSITO: MATERIAL MAIS ENXUTO E CONTROLADO ESTÁ SENDO CUMPRIDO.

ABRAÇOS!!!

Carlos Vecchi

Fonte:Blog da O2

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14 COMENTÁRIOS

  1. Olá, meu nome é Mácio Bertoni, sou Assistente de câmera e trabalho no Rio. Esse ano tive a oportunidade de trabalhar num set com 5 cameras (3 EX3 gravando em cartões SXS, uma AVCHD gravando em cartão de memória pró duo e uma camera de vigilancia gravando em miniDV), ou seja, tres tipos de formatos e mídias diferentes. A maneira que descobri de organizar todo o material foi mesmo a boa e velha claquete, usando TAKES por conta dos formatos diferentes. Funciona, inclusive foi o fator determinante para o sinc de audio, pois sem um gerador externo de TC não se pode confiar nos relógios internos da EX3 (o gravador de audio não gerava TC para o link da EX3, que tem entrada BNC). Mas confesso que eu não dispunha de um boletim de câmera e ninguém sinalizava o que poderia ser imediatamente descartado. Um detalhe importante é que eu não era o unico assist de câmera, eramos 3, comigo coordenando os outros 2 companheiros. Relembrando, concordo com o Fernando quando ele diz que se pode economizar muito material simplesmente descartando logo de cara o que esta errado e não vai ser usado mesmo, mas senti que nesse caso o diretor queria mesmo ter tudo o que foi GRAVADO. Enfim, adorei o blog, o “método” e a discussão. Estou a disposição para conversas. Abraços, Márcio Bertoni.

  2. Sou assistente de direção e entendo a questão da seguinte maneira: Contratem continuístas.Ningu´´m falou ainda desse importante profissional. A televisão brasileira utiliza e o cinema também. Porque a publicidade quase ignora essa função?
    Nos filmes publicitário é uma peça que faz muita falta. Não seria ela, a profissional ideal para fazer o boletim?
    .Sentada próximo ao Diretor?

    • Sim querido.Esse era o nosso trabalho quando se trabalhava com a película. Tudo era anotado pela continuísta boletim câmera para o produtor e laboratório,boletim de continuidade para montagem.O último JOB que fiz ,já bolei um novo boletim para esse formato digital e acordado com a direção,voltamos a “ação e ao “corta”, e mais do que isso, aquele bate bola pra marcar o que está valendo,mesmo que seja mais de um take. Deu super certo !!!

  3. Hahaha…achei muito boa essa ” Filmagem é uma coisa, pescaria é outra. ”

    No ano de 2011 eu completo 10 anos de profissão e desde o principio do meu trabalho com edição um dos maiores problemas que tenho enfrentado a ilha é justamente o tempo que o montador/finalizador perde em fazer o trabalho dos outros.

    Essa discussão do Fernando é algo que já acompanhei em outro canal. Mas achei ducaralho você ter mandado isso para a gente.

    Nos últimos 4 anos o meu trabalho tem sido dentro de produtoras de vídeo. Onde o “método” de uma certa forma é buscado. Vi de perto a conversão da era digital e em consequência os seus pontos positivos e negativos. Realmente hoje existe uma liberdade muito maior de captação. E muitas vezes quando vou editar um material de 30 segundos é absurda a quantidade de imagens que é feita para se chegar em tão pouco.

    Mas a questão não é o produzir e sim o organizar.

    Na ilha o trabalho pode ser fácil ou extremamente dificil. Certos orçamentos as vezes parecem absurdos para alguns produtores. Mas dificilmente se consegue levar em conta todos os pontos, por falta de interesse de conhecimento ou até de malandragem.

    O meu orçamento começa primeiramente perguntando: quanto material bruto você vai me passar? Depois pergunto: você tem roteiro? Terceiro: O quão teu roteiro especifica o trabalho de montagem e finalização?

    É batata, depois dessas perguntas primárias você ja sabe em qual encrenca esta entrando.

    abração todos!!!

  4. Trabalhei na agência Casa Digital no RJ no arquivo de imagem desta empresa. Lendo os comentários, me lembrei das agruras de lidar com material captado por câmeras diferentes e o programa que usava pra indexar, catalogar as imagens nem sempre liam. os clips de vídeo. Os servidores em eternas expansões, onerando cada vez mais o processo. Uma pena que não exista preservação e conservação digital, pois de um ano pra outro o processo de captação muda, nemsempre as produtoras investem em back up e no final a memória se perde. Abs